" Estou com 71 anos, sozinha, o meu marido morreu no ano passado, o meu filho está no Canadá. Mal me consigo mexer, já quase não vejo ( cataratas nas vistas), uso fralda e tenho dores em todo o corpo. Querem enfiar-me num lar. Só quero morrer, só me resta morrer".
É verdade. Sofre. O que está para vir é ainda pior. Prolongámos a vida dos humanos, mas retirámos a humanidade à vida. Você podia ser hoje a matriarca de uma grande família, com filhos e netos à sua volta; podia morrer com açúcar, na sua casa, na sua terra, com os seus cheiros e as suas cores. Sobrevivendo, você demonstra como as coisas poderiam ser.
posted by FNV on 10:43 AM
#COM TODA A CERTEZA, E A CRISE VAI AJUDAR:
posted by VLX on 12:46 AM
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(6) comments
A VERDADEIRA CORNETA DO DIABO:
Até simpatizo com a bola e as diversas competições, não só aquelas em que o FCP entra mas também com as outras. Só que por uma vez estou farto disto e isso deve-se apenas a uma corneta inacreditável que seguramente ser hediondo criou e a que criaturinhas hediondas aderiram. Oiço na televisão, na rádio, na vizinhança, no silêncio das serras dos passeios de mota um ensurdecedor barulho de trompa que não imaginaria ao Falópio. Disseram-me que em reportagem da SIC até os jogadores se queixavam da imbecilidade. Inteiramente de acordo. Raio de coisa.
Admito que àquele que se tenha limitado às aulas de Português Técnico lhe falte o mais vulgar vocabulário, mas dizer-se que não encerrar escolas com menos de 20 alunos “seria criminoso” é coisa que deveria fazer reprovar o maior cábula do canto mais recôndito do país. Fazê-lo com auxílio do argumento da economia, então, isso sim, é verdadeiramente criminoso.
Quando no Estado Novo se andou a construir escolas pelo país inteiro, essa medida não foi seguramente economicamente sustentada, mas era devida às populações que existiam no interior. Hoje, retiramos-lhes as possibilidades de aí viverem. Que interessa o município xis andar a pagar pelos nascimentos, se o Estado não dá aos pais escolas para os filhos serem ensinados? Se o país prefere reunir as crianças numa camioneta e fazê-las passear horas até as reunir numa imensa escola longe de casa? Se prefere deixar morrer o interior?
Sabugueiro e Santana são duas localidades simpáticas entre Montemor e Arraiolos, duas terras onde se diz que irão encerrar escolas, duas terriolas onde me desloco variadas vezes e onde compro, no comércio local e para o ajudar, tudo o que tenham para me vender e me faça falta nas temporadas em que lá estou. Faço-o, por vezes pagando conscienciosamente mais do que noutros estabelecimentos maiores existentes relativamente perto (em Montemor e Arraiolos), para ajudar a população local e manter o comércio, as gentes, a população, a vida. O meu contributo é reduzido, seguramente, mas o Governo socialista não quer fazer nenhum. Isso é que é criminoso.
Num país em que qualquer par de jarras numa cerimónia qualquer inventada consegue reunir televisões, rádios e jornais de todo o tipo, surpreende que a procissão das velas realizada por 40 a 50.000 crentes na baixa do Porto, a 31 de Maio, não tenha sido noticiada no Público.
É público que sou defensor, adepto, leitor diário do Público, mas fiquei, durante toda a semana, estupefacto com a omissão noticiosa: 50.000 pessoas realizam uma procissão no centro da segunda cidade do país, e isso não merece uma nota de rodapé no jornal que leio?
Um leitor, Miguel Alvim, foi mais expedito do que eu e queixou-se ao Provedor do Leitor do Público, José Queirós, que achou naturais as explicações do jornal, uma coisa mais ou menos assim à Sócrates: não tinham sido informados nem oficial nem particularmente. Não teria sido uma omissão deliberada mas pura "ignorância", que se manteve a semana toda. O Público diz ainda que não noticia procissões (não vão confundi-lo com um jornal de bairro...), mas... 50.000 pessoas no centro do Porto?!? Não é notícia?!?...
Confesso, a favor do Público, que preferia que o jornal tivesse admitido não achar importante que cinquenta mil pessoas católicas tivessem ‘desfilado’ no centro do Porto a admitir a ignorância e desconhecimento. Era até mais credível o registo tendencioso, pelo menos para quem acompanhou as reportagens da vinda de Bento XVI a Portugal.
Mas o Público preferiu dizer que não sabia, que não o avisaram. Mas só publica as notícias que lhe mandam previamente? As que recolhe na Lusa? Isto é explicação que se dê? Fulano despista-se na A1 mas não avisa antecipadamente o jornal, Beltrano faz-se explodir em escola secundária e não avisa previamente o jornal – isto não é noticiado? E quando o Publico leu a notícia nos jornais, nos outros jornais, nos que estiveram atentos, também não achou relevante contar a coisa aos seus leitores? E nem repreendeu os seus repórteres pela omissão? Juntam-se 50.000 pessoas no Porto e nenhum soube? Estava tudo a dormir? Que raio de gente trabalha ali?
O Provedor do Leitor (do Público, Domingo, 6 de Junho), supostamente condescendente, acha que houve “apenas ignorância”. “Não se sabia, não se podia adivinhar” (critério que deita por terra toda a informação noticiosa sobre o 11 de Setembro, só para evidenciar o ridículo...). Considera também que a Igreja Católica não divulgou bem a procissão e acha que deve rever os seus “métodos de divulgação noticiosa”.
O Provedor do Leitor do Público não está a ver bem a coisa: a Igreja Católica reuniu, sem divulgação, 50.000 pessoas no centro do Porto, segunda cidade do país. O Público, cuja tirada média diária de Abril é de 50.456 exemplares, não disse nada sobre o assunto aos seus leitores.
Dever-se-á concluir que se todos os leitores do Público saíssem à rua, sem avisar, isso não seria notícia?
O Público é muito mais do que isto e o público do Público merecia e está habituado a muito mais. Jornal e Provedor deveriam estar mais atentos.
E no Dragão Caixa, uma espécie de vala fétida com cestos e redes. E parece que os golfistas, os Tiger Woods da Cedofeita, só berravam o nome do SLB. Fizeram bem, sempre lavam a imunda gorja. Só falta um.
A 14 de Fevereiro de 1949, Ezra Pound foi galardoado com o Bollinger Prize de poesia por um júri que incluia Auden, Lowell, Eliot entre outros. Por causa do papel desempenhado por Pound no regime de Mussolini, foi pedida a opinião de alguns escritores - Orwell não se fez rogado e deu-a na Partisan Review de Maio desse ano. Orwell começa por aceitar que a Fundação Bollinger goste da poesia de Pound. Depois recorda uma emissão radiofónica na qual Pound aprovou o massacre de judeus na Polónia (e noutros países de Leste) e avisou os judeus americanos "que podiam esperar pelo mesmo." Orwell não comprou a tese de um Pound "louco", tese essa que valeu ao galardoado saltar da prisão para o St. Elizabeth's Hospital em Washington: aquelas palavras, bem como muitas outras, não eram as de um lunático. A opinião de Orwell foi, portanto, clara: que a Fundação distinguisse a integridade estética e a decência comum, mas que não desculpasse a carreira política de Pound com base na sua carreira literária. É um bom princípio que se pode aplicar, invertendo os termos, a Manuel Alegre: que uma eventual carreira política de sucesso não desculpe uma poesia indigente.
Bem pregava Bourdieu sobre o constrangimento do actor no campo político - não pode falar. Pouco importa o assunto em si, o que conta é o tom do jogral: "à bruta" e "sem benevolência". Se Sócrates discorda de L. Amado, era suposto ter dito o quê? Insuportável é depois ouvir ( e com esforço, porque não sabe falar) Ana Sá Lopes, na TV, queixar-se da lalangue dos políticos portugueses. Ou seja: ASL produz o espectáculo que depois assobia.
Durante toda a manhã a TSF salivou: "novo barco a caminho de Gaza" , "situação explosiva", Israel "não vai ceder". Depois da sesta recomecei a ouvir os noticiários e constatei que o navio tinha desparecido do radar. Não foi necessário um cérebro auxiliar: não houve sangue. E eu a julgar que a TSF estava interessada no destino da ajuda humanitária a Gaza.
Na portinhola da Indaqua Matosinhos, empresa que faz com as águas aquilo que dantes as Câmaras faziam sem empresas, pode ler-se um aviso atencioso para com o cliente que lá se dirija: estão fechados nos dias 4 e 11 de Junho. Interrogo-me sobre a razão de tão estranho encerramento e imagino que, com o sol que está, o pessoal das águas tenha ido a banhos. É por estas e outras que, não tarda muito, o país inteiro irá por água abaixo.
Em tempos fizeram-se várias manchetes, repetidas manchetes sobre as acusações feitas a diversas pessoas, num processo complexo a que se deu o pomposo nome de apito dourado. Veio até gente de Lisboa, para garantir que os provincianos não estragariam a festa da capital. Reuniram-se meios e colocou-se à frente magistrada alfacinha já com opinião formada para nada falhar. Agora que os acusados foram absolvidos, curiosamente não vejo manchetes nem primeiras páginas explosivas. Nem sequer em defesa do dinheiro dos contribuintes. No entretanto, a pseudo-escritora que o MP, uma jornalista e o Presidente do Benfica tanto acarinharam foi condenada nos tribunais a sério. Mas isso também não é notícia. Notícia, notícia, segundo a Bola de ontem, é o FCP ter obrigado o Benfica a gastar mais de um milhão de euros para conseguir segurar o seu treinador. Isto sim, é manchete.
Em Janeiro de 1947 ( "Leçon de Valery" no Listener) , Eliot escreveu sobre Valery: A sua modéstia e informalidade eram as qualidades de um homem sem ilusões. O apreço de Eliot pela poesia francesa , sobretudo Valery e Cocteau, não era comum nos editores ingleses, quanto mais a amizade sincera. Muitos anos antes, em 1923, Eliot retribui uma carta de Valery. Fá-lo em francês, algo de francamente incomum, e com gusto. Valery tinha-lhe escrito a propósito de questões editoriais, mas incluiu um elogio publicitário à revista de Eliot, que leu a bordo de um navio que atravessava o Canal: La mér était fort sévere, mais le numéro du Criterion m'a rendu indépendant du mouvement. Faço o mesmo nos aviões: nas ( felizmente pouco frequentes) descolagens e aterragens, embrenho-me no mato e caço com Capstick, Patterson ou Pardal. Eles que se mexam.
Depois disto, uma série de bloggers, que de vez em quando debatiam comigo os mais variados assuntos, passaram a incluir-me , de um modo geral, no grupo das "bestas" e dos "imbecis"( não foi a primeira vez que descobri esta amável esquizofrenia). Veio mesmo a calhar, porque iniciei a políticaJohn Mortimore("no comments")nos meus posts. Ninguém perde tempo e fico ainda mais isolado. Óptimo.
"Gostava que o meu marido fosse como o dr.Filipe: atencioso e, sobretudo, com muita paciência para me ouvir. Com ele tenho quase sempre a sensação de estar a falar para uma parede".
É uma questão de experimentar. Peça ao seu marido para a ouvir uma hora por dia, fins de semana incluídos. Serão 1960 euros no fim do mês. A conversa equivale ao sexo: as mulheres sonham com um ouvinte atencioso, os maridos com uma ninfomaníaca. Você pode não acreditar, mas ele gosta de a ouvir. O Eduardo Prado Coelho contava uma história nemesiana. Um explorador vai a uma aldeia africana perdida nos dembos e leva um intérprete. Chegam ao pé do soba, que desata a dar à língua. Ao fim de uma hora, o explorador, impaciente, pergunta ao intérprete: "O que esteve ele a dizer?". O intérprete responde: "Nada. Por enquanto está a só falar".
" A minha filha não gosta de rapazes. Falou comigo no outro dia , mas eu já sabia, já desconfiava. Nunca a vi com um rapaz. Diz que está apaixonada por uma colega, mais velha, que já está em estágio. Estou de rastos, o meu marido está em choque. O meu mundo desabou".
Pois desabou e já não há nada a fazer. Acontece. Adiante. O que lhe parece o mundo novo? A sua filha respira sozinha, estuda e ri-se, não é? E, quando a vê, a senhora dá-lhe beijos, não dá? O seu mundo novo é velho. É ter os filhos vivos, felizes ( enfim, nesta época ensinam-lhe essse disparate da felicidade, parece que vem nas revistas) e ao pé de nós. Faz-lhe impressão imaginar um almoço com a namorada da sua filha? Claro que faz, compreendo. Antes de elas chegarem, pense em todas as vezes que teve a sua filha nos braços, vá ao álbum buscar uma fotografia antiga. O que é que conta, do princípio ao fim dos tempos? Pois é.
Continuemos com Broch ( O problema da morte da civilização, 1936): os pensamentos, os conhecimentos e as verdades humanas pertencem todos ao mundo quotidiano da época. Cada época constitui-se como estado definitivo do mundo, Broch entendendo que isto se aplica especialmente às épocas religiosas. Estamos muito longe da época de Broch, que se fechou sobre ela, é certo, mas sobram indícios. Invertendo os termos: a religião da época europeia ( a cristã) compreendeu, sem rebuço, que uma certa totalidade acabou. Restam morceaux, mais ou menos espalhados, mais ou menos vivos.
posted by FNV on 10:17 PM
#OS AMIGOS DE MUNIQUE ( mais "amizades e afinidades culturais"):
Não gosto muito desse estilo de crónica social, mas falam de, por exemplo, quase toda a extrema-esquerda europeia respeitável, dos anos 70 e 80, que alinhou com a revolucionária ( que matou centenas de soldados em cafés, escolas, ruas , jardins e restaurantes) e com os movimentos de libertação palestinianos ( que matavam soldados-crianças em autocarros a caminho da escola) ?
Os americanos de Obama, no Iraque e no Afeganistão, com a guerra a milhares de quilómetros de casa, já executaram centenas de operações com "uso de força desproporcionada" nas quais morrerram milhares de civis. É a guerra, acusam os compreensivos. Por isso aprecio os que dizem o que pensam. Antes assim do que desculpando-se com uma realidade com pouco mais de meio século.
Mar de opinioes, ideias e comentarios. Para marinheiros e estivadores, sereias e outras musas, tubaroes e demais peixe graudo, carapaus de corrida e todos os errantes navegantes.