Já tinha ouvido dizer que há gente que vale por três mas nunca tinha realizado isso com tanta objectividade: Pedro Nuno Santos foi à TVI 24 defender-se chamando a si e colando-se às afirmações de Sócrates sobre a dívida pública e ancorando-se nas propostas de Seguro sobre as sanções aos Estados cumpridores. É fantástico, este três em um.
E continua a dizer que mantém o que disse, embora dizendo coisas diferentes do que então disse. Daí que eu não perceba se ele percebeu o que disse, como ele já não tinha percebido o ferro curto que Nuno Encarnação lhe tinha cravado com gosto no final do debate na Assembleia da República.
O homem não percebeu que é uma sorte para Portugal que os nossos credores não lhe reconheçam qualquer responsabilidade e seriedade, não percebeu que o próprio estava a reconhecer ser um irresponsável e, com isso, a arrastar o país e os portugueses para a irresponsabilidade, não percebeu que queria fazer arrebentar uma bomba atómica no nosso país, não percebe que a bancarrota a que os socialistas nos levaram e a necessidade de ajuda externa a que nos obrigaram é que implicam esta austeridade de que se queixa, não percebe que quem tem de explicar posteriormente os discursos ou conferências que faz só revela impreparação ou incompetência, ele continua sem perceber nada.
Talvez por isso se tenha defendido dizendo ainda que não sabia que as suas declarações eram públicas e estavam a ser gravadas. É outro Nersão.
Em menos de oito dias, três grandes do PS ofereceram-nos três enormidades colossais que merecem referência por nos revelarem a total irresponsabilidade e a falta de preparação daquela gente.
Armado em conferencista, e filmado por um vídeo igualmente amador, Sócrates apregoou que pagar a dívida era ideia de criança, pois assim teria estudado, embora não saibamos muito bem onde nem em que fim-de-semana.
Depois veio António José Seguro, envergando os seus melhores óculos de conferencista, defender a aplicação de sanções aos países cumpridores. Leram bem: quer sanções para aqueles Estados membros da zona euro que tenham excedentes financeiros e não acorram a salvar os incumpridores. Notável. Notável como a plateia se não desmanchou à gargalhada.
Agora veio um Pedro Nuno Santos berrar para a rádio Paivense FM que se estava a marimbar [sic] para o banco alemão que emprestou dinheiro a Portugal, que se estava a marimbar que nos chamassem de irresponsáveis [sic], pois nós tínhamos a bomba atómica [sic] que era dizer que não pagávamos, pelo que ou os alemães se punham finos ou nós não pagávamos [sic]. De acordo com o iluminado, isto deixaria os banqueiros alemães com as perninhas a tremer [sic]. Simplesmente fabuloso, merece ser ouvido .
Para além de se evidenciar que a bomba atómica não pode estar na mão de tolos irresponsáveis, todo este conjunto de disparates obriga a algumas reflexões. Os disparates têm de semelhante provirem de dirigentes socialistas, dirigentes daquele partido que nos colocou à beirinha da bancarrota e negociou como quis há meia dúzia de meses os empréstimos de que falamos. Têm ainda de coincidente a benevolência da comunicação social, tantas vezes tão crítica quando lhe interessa como silente quando lhe convém: é extraordinário que não haja manifestações de gozo relativamente a estas afirmações, que mais parecem saídas de um personagem do Herman, dos Gatos ou do saudoso Raul Solnado.
A irreflexão, irresponsabilidade e inconsciência desta gente, aliada à evidente falta de preparação, só nos pode levar a concluir que eles não podem ser levados a sério. Ou então, se querem ser levados a sério, teremos de concluir que são incompetentes. Claro que, acaso não queiram ser catalogados de incompetentes, terão de ser rotulados como intelectualmente desonestos. Em qualquer dos casos, nenhum fica bem na fotografia e todos parecem estar a gozar com o esforço actual dos portugueses.
Nada disto me surpreende, vindo desta gente, e até Zorrinho considerou as afirmações adequadas aos personagens e aos locais, mas não posso esquecer as fabulosas atenuantes invocadas pelos próprios: Pedro Santos defendeu-se dizendo que falava num jantar partidário no interior do país, estilo bacalhau basta, e Sócrates alegou não ter consciência de que estivesse a ser filmado. Pois... o Nersão também não tinha.
Claro que todos podemos acreditar em coincidências, mas a verdade é que em todo o país apenas num estádio se obrigam os adeptos adversários a entrar passando por baixo de um viaduto, devidamente pejado de adeptos da casa guarnecidos com iguais calhaus para atirar, só nesse estádio um adepto fervoroso salta para o relvado para agredir o juiz de linha sem que nada aconteça, só nesse estádio se provoca deliberadamente um apagão da energia eléctrica que poderia ter causado o pânico em dezenas de milhares de adeptos e provocado uma catástrofe, só aí se pretende esconder a frustrante derrota ligando o sistema de rega sobre os jogadores vencedores, apenas aí se incendeiam os autocarros das equipas adversárias, é o único estádio que constrói verdadeiras jaulas para os adeptos adversários, que as inaugura num jogo de risco, que obriga os adeptos dos concorrentes a atrasar a sua entrada e só verem (mal e apertados) a segunda parte dos jogos, é o único que proíbe as idas às casas de banho, o único que albergava um paiol de soqueiras, bastões, armas diversas e estupefacientes a gosto, só aqui os stewards são incitados a ir onde não podem para espicaçar e agredir os jogadores adversários e só aqui se sovam barbaramente indefesos jogadores de hóquei.
Perante tudo isto, não me causa espanto que umas dezenas de cadeiras desse estádio entrem em combustão.
O que me espanta é a reduzida eficácia no combate ao fogo: seria tão difícil apagá-lo? Seria necessário o fogo atingir aquela dimensão? Não há câmaras de vigilância? Os seguranças estariam todos nos túneis armados com varapaus? Não se atacou de imediato o fogo porquê? — isso sim, deveria ser objecto de uma cuidadosa investigação.
Quando o PS e Carvalho da Silva se põem a defender que, lá na ideia deles, existiria a possibilidade de se cortar apenas um dos subsídios, eles, no fundo, estão a admitir a inevitabilidade de se terem de cortar os subsídios: não há outra leitura.
Ao fazê-lo, eles estão a admitir a derrota das suas ideias anteriores e a vitória de Sócrates e de Teixeira dos Santos, os tipos que nos conduziram a esta inevitabilidade de se ter de cortar (pelo menos um d’) os subsídios.
Se assim é, como é, então deviam colocar mais seriedade no debate político: o PS não se deveria apenas abster na discussão do orçamento, para o qual contribuiu largamente durante quase 15 anos de desgoverno, mas sim aprová-lo. E Carvalho da Silva não deveria andar a instigar por aí arruaças e greves que só prejudicam mais os trabalhadores.
Teixeira dos Santos saiu da toca para vir dizer que esteve para se demitir quando o Parlamento aprovou as alterações à Lei das Finanças Regionais, que ele chamava de “lei do regabofe.”
E o regafobe que foi a sua passagem pelo governo socialista, seis aninhos à frente do Ministério das Finanças que nos conduziram à ruína e à intervenção externa? Em nenhum momento se sentiu tentado a demitir-se?
Nem quando fez de criado-mudo de Sócrates enquanto este na televisão explicava ao Luís e aos portugueses as maravilhas da intervenção do FMI? Há gente que tem uma lata...
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