A BELA QUESTIO: Porque os liberais têm horror aos libertários. Vamos ter de ir por partes. O pensamento liberal, por muito imprecisa que seja a designação, pode históricamente definir-se pela sua relação com o Estado, ou seja contra o monolitismo político e ideal. Não é por isso de estranhar, que os três grandes regimes do terror do século XX, o nazi, o fascista e o comunista tivessem em comum uma raíz e um propósito: uma matriz anti-burguesa e o domínio da sociedade pelo aparelho de Estado. E, como não podia deixar de ser, uma vontade libertadora, a da construção de um mundo melhor.
A corrente anti-moderna, e por conseguinte anti-liberal do século XIX era uma revolta contra o triunfo da mui materialista e burguesa Europa. Nietzsche, Sombart, Spengler, Pareto, Burkhardt, (name droping inevitável) e muitos outros desprezavam a sociedade de massas, a moral do rebanho, a alfabetização, a decadência dos valores espirituais. A essência da moral burguesa, cristã, capitalista e liberal assentava na propriedade privada e numa fórmula, que Maquiavel muito bem pressentiu,os Bens supremos não podem coexistir entre si. Terrível, a contribuição de Maquiavel, porque ferozmente anti-utópica, e muito bem aproveitada por Berlin: Liberdade é liberdade, não é justiça social, felicidade ou segurança. A perda de alguma liberdade terá por vezes de ser auto-pronunciada para favorecer alguns dos valores acima referidos.
Ora aqui chegamos a um ponto euxino. O que cada um está disposto a abdicar, mediante arranjos estabelecidos a partir da herança helénica e de uma concepção iluminista do direito natural, os libertários do século XX resolveram de outro modo. Baseados na certeza segundo a qual os homens, se fossem outra coisa qualquer diferente do que são, também haveriam de querer o que eles lhes propuseram, operacionalizaram a utopia. Como dizia Bukharine, pode levar 5, 10 ou 50 gerações, mas do cidadão soviético haverá de ser extirpado o amor à propriedade.
O horror aos libertários (expressão muito feliz), é o espelho do horror dos libertários.
Quanto ao uso com juizinho da liberdade, conforme prometi, tentarei mais tarde, com todo o gosto, aceder a discuti-lo.
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