É OU NÃO É? Eduardo Lourenço falava ontem tarde na noite na RTP-N, sobre a morte. A certa altura eu já não conseguia ao certo repetir a sua frase: a morte é a única coisa pensável ou é a única coisa não-pensável? Suponhamos uma mulher a quem morreu o pai. Está sentada na sala, casa silenciosa, um copo numa mão, a outra espraiada em dedos vários dedicadamente entrelaçados no cabelo. Se for dormir sonha com ele, se não for, pensa. Acordada, entrega-se a ela própria, talvez a um episódio infantil muito esbatido, talvez a um almoço a dois numa esplanada, num dia ventoso. Recorda sem esforço os joelhos angulosos que na altura a envergonhavam, o mundo seguro que o pai lhe mostrava, a força que em adultos temos vergonha em reconhecer. Se for dormir vai sonhar. Ele vai falar com ela sem palavras, naquela língua especial dos pesadelos, sem intérpretes qualificados. A mulher, no sonho, abraça o pai. Se pensar é desejar, e desejar é na fórmula imortal de Blanchot, tornar a distância sensível, o que é sonhar assim?
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