BOM, MAU E ASSIM-ASSIM: Só a descobri agora, já tem seis meses (ou um pouco mais) a edição da 101noites com tradução de Sandra Silva, de um pequeno conjunto de documentos relativos ao haxixe parisiense de meados do século XIX, sob o título comercial de O Clube dos Fumadores de Haxixe. O célebre texto principal de Gautier que dá o nome à edição está bem acompanhado de uma deliciosa carta de Boissard e da receita de dawamesk do Dr Bouchardat. Tudo bom, portanto. Um pequeno senão, a introdução de Sandra Silva oblitera o papel de Antoine Rabelais, o pai do famoso Rabelais (o François), que foi o primeiro cultivador europeu de haxixe, na sua propriedade de Chinon, bem como não dá o justo relevo, embora o mencione de passagem, a Moreau de Tours ( já aqui o trouxe, em tempos, ao Mar Salgado) que iniciou aqulea malta toda na coisa; A Sandra Silva também exagera ( excesso de zelo?) um bocadinho na afirmação "na época o haxixe era geralmente ingerido em vez de fumado...". Não cara Sandra, o haxixe na época não era "consumido", no sentido que o leitor dará às suas palavras, nem de uma forma nem de outra, a não ser por uma deliciosa minoria de extravagantes: Gautier, Sacy, Nerval, Balzac, Baudelaire, Tours, etc. Nada de grave, apenas um assim-assim de pequenas imprecisões. O mau da história não envolve a edição nem a tradutora. O mau é a ausência permanente de edições acerca da História das Drogas em Portugal. Desde o desleixo vergonhoso a que estão votadas as edições de Garcia da Orta e Cristovão da Costa, passando pela ausência de tradução de clássicos como os de Butel, Rudgley, Musto ou Walley. Uma boa parte da nossa miséria de conhecimentos sobre as drogas assenta na olímpica indiferença perante textos essenciais. A má prática vem a seguir.
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