SERVIÇO PÚBLICO: O documentário "Ainda há pastores?", de Jorge Pelicano, exibido ontem na SIC-Notícias. Conheci ( e conheço) alguns pastores da zona de Folgosinho: são exactamente assim. Depois, texto e fotografia soberbos e uma quente locução de Fernando Alves.
Os resquícios de um mundo rural em quase extinção. A morte da genuinidade, do natural, dos cheiros e dos ventos e das cores, motivada por essa bestialidade que é o "so called" progresso e a sua pacotilha suburbana de mesa de café. Parabéns pelo remark !
Cruel, verdadeiramente cruel é o paradigma da vida sub-urbana do Portugal de hoje, das Reboleiras e das Massamás, dos prédios de 30 condóminos que se não conhecem nem cumprimentam (nem pedem uns aos outros um bocado de azeite que acabou), da guerra diária de não sei quantas horas em decadentes transportes públicos, do horrendo torpor das telenovelas e concursos televisivos, espécie de ópio para o desinteresse do quotidiano, das crianças que se chocam com a caça mas que se divertem no computador a assassinar concidadãos e que rejubilam com a idiótica violência do wrestling, da ausência de valores de solidariedade, da perda de qualquer individualidade saudável, arrebanhados que estão os portugueses no destino conformado e irremediável do passeio no shopping.
E isto é assim porque a sociedade não soube dar resposta às necessidades criadas pelo êxodo para a cidade: à comunidade e família substitui-se no papel conformador das personalidades e valores, a escola...mas que escola, dominada pela indisciplina, maioritária iletracia e insatisfação dos professores, desinteresse completo pela formação, um cúmulo de remendos mal cerzidos que dificilmente cumpre as necessidades do vestir (formar) um ser humano. À sociedade ou botica ou soleira das portas em noites de verão, substitui-se a televisão, os espaços de lazer e cultura e o já referido shopping. Mas, outra vez, que televisão... a do embrutecimento dos sentidos, da exploração das fraquezas, do sórdido voyerismo.
Enfim, muito mais para dizer, mas sinto que abuso do teu tempo e espaço. Desculpa-me. Acabei por desabafar e destilar aqui o horror que cada vez mais tenho pela fealdade urbana, para mais certa da sua inevitabilidade e seguramente também certa da minha ignorância de uma receita de equilíbrio que permitisse conjugar e conciliar, esses dois mundos em que vivo (o urbano, de facto; o rural, em sonhos de uma alma inquieta e em escapadelas de fim de semana e férias)
Eu é que agradeço o desabafo, só hoje te respondo porque ontem vinha de ouvir muitos. E desabafo por desabafo, um potlach: Por herança familiar, acabo por ver no consultório muitas pessoas que nada têm a ver com a clientela urbana das psicoterapias. É gente dura, que me fala de um mundo circular de colheitas, provações, sobrevivência. Penso muitas vezes que mais cruel do que o campo, só o chegar a velho e ver tudo destruído, abandonado. É que deveria ser nesa altura que essa gente deveria ter algum retorno. Não tem.
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